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Imagens sem Disciplina - Carlos Vidal A "santería" é a variante cibana da religião cubana Yoruba e um dos quatro sistemas religiosos afro-cubanos - os outros são o "palo-monte", a "regla arará" e a sociedade secret "Abakuá"; muito importante é registar-se de seguida as inúmeras possibilidades de deslizamento entre as divindades da "santería" (mais de duzentas, e chamadas "orichas") e as pertencentes ao catolicismo (em certos casos a virgem transforma-se em Ochún, "oricha" do amor e da sexualidade). Destes deslizamentos contrói-se estilisticamente uma heterogeneidade rara - uma antropofagia cultural, como reclamou Oswald de Andrade, proponente de uma canibalização do europeu como moderna raiz identitária: "Só a antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente (...) Só me interessa o que não é meu. Lei do homem. Lei do antropófago. (...) Nunca fomos catequizados. Vivemos atrás de um direito sonâmbulo. Fizemos Cristo nascer da Bahia. Ou em Belém do Pará" ("Manifesto Antropógrafo", 1928). Neste sincretismo radical viverá Ana Mendieta, permanentemente com um notório sentido de "orfandade", que significa estar neste território como também noutro qualquer - o que complica toda a tarefa ou leitura interpretativa. Felizmente para a sua obra [sobre Ana Mendieta]. Carlos Vidal (Lisboa, 1964) é licenciado em Pintura pela Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa, onde lecciona. Crítico de arte (Arte Ibérica, Lapiz) e artista plástico, expõe colectiva e individualmente desde 1991. Entre inúmeras colaborações em revistas, jornais, conferências (Centro Rainha Sofia, Madrid; Serralves, etc) e livros publicados ou em que colaborou, poder-se-á destacar Definição da Arte Política (1997), En Tiempo Real: El Arte Mientras Tiene Lugar (2001) e, no prelo, A Representação da Vanguarda: Contradições na Arte Contemporânea. (288 páginas; 14 €) |